Quem és tu miúda …
Era apenas uma criança, como todas as crianças tinha muito para aprender, tinha medos, muitos medos, alguns infundados. Era atabalhoada, trapalhona com frequência deixava cair as coisas das mãos e demorava uma eternidade para fazer o que quer que seja algumas vezes era posta de lado pois não correspondia à eficácia pretendida os outros eram melhores e a vida era para os mais eficazes e perspicazes, muito embora não passasse de uma menina já sofria com as pressões e exigências de uma sociedade que procura o que não existe. Perfeição!
Foi crescendo dentro do seu peito uma ansiedade extrema e uma vontade de ser aceite tal como era. Numa sociedade de rótulos onde se beneficia com as fraquezas alheias, sociedade esta onde muitos terão de humilhar para sobressair, aprendera a fechar-se dentro de um peito forte apesar da sensibilidade, uma das suas mais belas características. Eu!? Eu, continuo afirmar: Todo o sensível é forte!
Ela percorria dois mundos, um mundo real e duro e aquele que vivia no imaginário e a obrigava a fugir das realidades impostas… era feliz apesar de tudo, aprendera a gostar das suas falhas, aprender a sorrir para a vida e quando ainda adolescente alguém lhe ensinara que a mentira muitas vezes dita passava a ser tomada como verdade, mas a verdade dela era outra aprendera aprofundar os mistérios e quanto mais ela crescia mais mistérios descobria sua consciência tornou-se leve mas triste, leve mas carregada de uma realidade que está aprendera a mascarar e o seu sorriso permanecia intacto muito embora mais maduro
Suas vozes interiores criaram dentro do seu ser outras hipóteses, resoluções e alternativas para o que não conseguia explicar. Criara um mundo inexplicável para conseguir sobreviver ao mundo real mas no ar ficava suspensa a pergunta: Será que tudo aquilo era realmente uma criação? Ou no fundo a verdadeira realidade a qual ela mesma fugia.
Foi na idade adulta que aprendera amar-se tal como era, os tropeços da vida obrigaram aprender amar a vida tal como era e a sua entrega levou-a ao desespero da transparência, essa vitrina provou onde estava o amor, o sentido da vida e para o que realmente valia a pena viver. Ao olhos de todos ela já não era mais ela, mas o seu olhar era de quem a cada dia conseguiu dar um passo, trazendo de um interior fechado um pedaço de tudo o que tinha guardado na infância, infância difícil para quem teve de aprender a viver várias de si num só corpo, um dom a trabalhar, explorar e praticar, na prática o que fez dela a mulher incrível que é ainda hoje.



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