UM FIM AMOR, SEM FIM AMAR

 Toda ela sonhava ser poesia e só a mão dele a fazia dançar. 

 Ela cantava para o poder encantar, mas como não era um conto de fadas e entre a realidade, a imaginação e a lenda há sempre pontos de contacto.

 Uma aproximação que a deixou um pouco distante de tudo. Não só da vida como por vezes dela mesma, os circundantes mal se aperceberam das hipóteses criadas e desperdiçadas até que o grito de socorro aconteceu.

 Meio que paranoica, procurava uma lógica e raciocínio, coisa que o seu coração já fazia tempo que não tinha. Não via razões nem motivos para semear algo diferente da colheita, na verdade, por muito que gritasse ninguém ouviria! Foi aí, que entrou o silêncio na sua vida, depois de um cansaço, desespero e exaustão.

 Demolhada em lágrimas procurando cada pedaço das suas responsabilidades, naquela tarde ali sentada no chão da sala resolveu arrumar as velhas fotografias de família.

 Foram picos de emoção, foram sensações que elevaram entre a saudade e nostalgia, aos momentos alegres que jamais voltaria a sentir. 

 Sentirá gritos na alma de júbilo como dores compulsivas, como se de telepatia se tratasse, como se tudo aquilo a reportasse ao infinito passado guardado numa comum gaveta da sala lá de casa.

 De repente ouvirá um forte e agudo ruído! Estranho, fazia anos que ninguém a visitava e os últimos vivos que partiram foram bastante explícitos em relação às suas escolhas. Bem, com toda a certeza fora coisa da sua cabeça já cansada de remoer o passado e reconstruir o futuro.

 Mas de novo o barulho voltará, por vezes tinha a sensação que ouvia chamar seu nome. Levantou-se e como guiada pela coragem, lá foi...

 Mas rodando tudo dentro da minúscula casa, o suficiente para que a solidão a fizesse enorme, tão ou maior que o seu stress. Corriam picos de suor pelas suas veias e algo inexplicável ressoava na brisa que a fazia arrepiar.

 Cansou-se de nada e voltou à gaveta, quando reparou que a janela estava aberta. E de novo, se lhe arrepia a espinha. E por volta que desse ao miolo, não lembrava ter aberto...não lembrava sequer mexer!

 A única coisa que abrirá fora a gaveta e a alma!

 O coração começou a bater mais forte e até a respiração desejava ultrapassá-la. Mas segurou-a com toda a sua força, voltando às fotografias e jurando a si mesma que não era nada.

 Quando olha em volta, e depara-se com os seus olhos enquadrar com os antigos olhos, sensações corporais se alteram.

 Quando a respiração se altera e os corpos se aproximam, quando se tocam e retocam.

 Fazia anos. Anos que não o via! Anos que não sentia nada assim, mas deixa envolver e devolver ao contágio do rolar dos corpos.

 Sim, como ele a desejava tanto quanto o seu próprio desejo. E num beijo selaram um amor que as palavras separavam. Naquele momento, onde o silêncio era um grito intemporal.

Ela levantara-se:

 Parecia que a campainha tinha tocado, ainda a pouco rolou toda a casa e nada.

 Foi ver... Mas de imediato voltou! 

 Já não encontrou a fotografia, já não via a janela aberta. As suas memórias tinham-se simplesmente apagado. Acabaram de morrer, tal como os sentimentos! Estava vazia, sozinha e com vontade de viver, já não tinha mais vinte anos quando as lágrimas acabaram por acontecer. Ele abraçou-a, pediu-lhe perdão, ficaram juntos até morrer. No mesmo chão onde juraram amor, por onde passou a sua dor e onde hoje está se liberta.

 Quando o vento entra de novo e a janela se abre, leva até ela o entendimento. O quanto tinha vivido e o que morreu. Vendeu tudo, partiu e nunca mais ninguém a viu. 

 Matou-o para poder continuar viva para além da sua própria morte.

 E ali de volta depois de tantos anos, relembrando por fim entendeu, que fora toda aquela dor que a fez feliz. Que foi aquele amor que lhe deu vida! 

 Agora com 96 anos, deixa por fim a jura de amor e o fim de uma história que a levou a lugar nenhum, mas que lhe fizera entender aqueles olhos e o seu leve toque, foram tudo a poesia que ela queria e alegremente a fez morrer!



Vieirinha Vieira ( Participação, Premio Escriva)

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