O poder de um sorriso. Com o tempo a vida ensina o quanto o nosso sorriso é ofensivo para os outros, confesso que por respeito guardei o meu e fui viver feliz, para outro lado, onde pode-se rir com mais vontade acima de tudo com reciprocidade. Onde o sorriso seja motivo para reatar amizades ou fazer muitas outras, partir sem deixar no esquecimento. Como nos tempos de menina onde o sorriso era um real motivo de fazer laços.
Nos dias que correm as pessoas estão fechadas custa-lhes abrir o peito, muitas vezes fico com a sensação que lhe arrancaram a carteira pelo coração. Assalta-me a memória os tempos de menina como enchia o peito descer o Olival de mão dada com o avô se ainda vivesse no Olival?
Acho que ela não levava a mal quando fazíamos batota para ganhar as cartas. É que tinha de ser ela a pagar os gelados, como se houve-se alguma probabilidade de ser o contrário. Quantas vezes as nossas crianças jogam hoje as cartas com os avós? Quantos avós tomam conta das nossas crianças de coração aberto e sorriso cheio.
As crianças de agora vivem para o sucesso, para o futuro e o presente? Poucos pais as deixam ou conseguem deixar que realmente sejam crianças de gargalhada solta e desprovida como quando era menina, tempo em que tamanha inocência e marotice, próprias da idade, a maldade nem de longe era lembrada.
Pergunto-me, como pode um sorriso aberto causar tantos danos? Mas causa. E em causa, está o ardo-me que causa. Uma mudança de opinião, confiança ou determinação.
A verdade é que denoto que o silêncio traz grandes benefícios, não muitos amigos pois estes aprenderam andar de lado e pé atrás, talvez por conhecimento de causa ou por causa do conhecimento. Apenas uma precaução, pelo sim ou pelo não. Fazem bem, afinal são os amigos que nos ensinam pois o inimigo não aparece. Lembro quando frequentava o liceu e sem maldade fazia as minhas reivindicações ou trocava opiniões com os colegas que nas minhas costas usavam isso contra mim. Não sei bem ao certo se era falta de capacidade ou maldade mas muitas vezes senti na pele as retaliações.
Ao fim de muitos anos e de rever as minhas mais densas memórias concluído que sorrir ofende sim, principalmente aqueles que usam a maldade e não conseguem ver-lhe o efeito, pois ainda acredito que a bondade mesmo manca chega mais longe que uma maldade inteiriça.
E recordo a vontade com que a minha professora batia, tinha eu apenas 8 anos e era a menina rica da escola mas era burra, pois dava mais de 30 erros por dia e pergunto-me diariamente o que diria hoje se está lê-se a minha biografia. Qual seria a reação da professora Elisa, ou de qualquer outro professor que tem por aroma castigar os alunos que não consegue aprender de igual forma.
Tão fácil querer o difícil é perscrutar, é lá chegar.
Meus pais sempre preocupados com o trabalho e minha saúde. Preocupados para que nada faltasse, incluindo o amor, mas existe sempre culpas de parte a parte. Na memória trago palavras de meu pai dizendo o quanto ficava barata, um lápis e um papel e já não havia menina, passados tantos anos e depois de baixar os braços aqui estou.
Muito riso pouco juízo. Ecoavam vozes: logo eu! Que trago o meu segredo, promessas uma missão e mil desejos. Séria o agrade de muitos nos tempos de agora mas não tive como dar-lhes esse gosto.
Na verdade a vida ensinou-me que tinha de fazer escolhas e uma delas é quem realmente merece o meu sorriso, transparência e plenitude, porque podemos corrigir erros mas nunca apagar memórias. Acredito que até com Alzheimer as coisas boas nunca se irão esvanecer por nada.
Um sorriso pode ser um desastre por entre dentes e línguas com ponta de potássio. Ele incendeia e muitas vezes ele mesmo obriga a renascer das cinzas.
Vieirinha Vieira ( Curso de Crónica) NOTA: 0/100 = 82% -
O registo e a tradição da crónica de António Lobo Antunes , BLOCO III



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