Nutrição do Pomar


 

 Era uma laranja bem verdejinha, redondinha e brilhante que parecia estar a despertar no laranjal, a sua flor brotou lá no cimo bem no topo da laranjeira, entre muitas outras flores, verdadeiros amores com aromas pelo ar junta aquela ria, que um dia desaguaria no mar.

 Precisava se encontrar! 

 Numa manhã de domingo ainda o sol não tinha nascido e ninguém sabia ao certo se este nasceria naquele dia.

  No primeiro momento que abriu os olhitos, primeiro não acreditou, segundo logo os esfregou, terceiro… logo, logo se fascinou com o que via, sua alma não estava parva mas parecia.


  • E dês de quando laranja tem alma ? 

Perguntou Zezito, só para chatear. 

  • Parvo estou eu com as perguntas do Zezito!

  •  Professor mas eu não a conheci…

  • Zezito não seja inconveniente. 


 O professor estava desagradado com às simultâneas intervenções que Zezito fazia, mas logo se abestia, o sarcasmo nunca funciona com crianças. 


E lá foi continuando e testando sua paciência de bom professor. 


 O vento passou, à sua volta as flores caíram, e ela suspirou. Não, não se apaixonou. É que ainda assim se encontrou fora de perigo. Fora um alívio.  


 Zezito voltará a interromper o professor. 

 Pois bem, meu amigo…está caladinho, para entendermos a história. As perguntas são no fim e se for preciso, conto tudo do início, está bem ?  


 Zezito não ficou nada agradado. Encostou-se para o lado e mostrou-se desinteressado. Acho que amuou! 

 Pelo menos estava calado! 


 Estava tão verde. 

E tu perguntas-me :

  - Como assim, verde?


 A consciência do professor, apercebeu-se… Zezito já não estava ali, o Pomar ou a Nutrição já não lhe dizia ao coração, cortaram-lhe a intervenção.


Sentia-se verde, apesar de laranja. Entendes ? Sentia-se só… apesar de rodeada de outras tão iguais ou parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes.


 Como não podia entender Zezito, era exatamente assim que este se sentia naquele momento. Por dentro fervilhava, não podia fazer nada, era o professor que mandava. 


 O sol foi embora e o vento acalmou…


  • O Professor, esta parte inventou ?


Diz  Zezito triunfante. E em silêncio ficou, olhando toda a sala com cara de quem sabia o que tinha feito, pois não podia deixar o professor vencer a dele. E logo o Zezito! 

 Zezito era um menino irrequieto mas muito questionador, gostava de aprender e até do professor mas não era como o professor. Tinha uma curiosidade fora do comum, era inquieto e questionador, na verdade ele esperava sempre mais, o que deixava o seu professor bastante frustrado.


 O professor disfarçou até onde pôde… e lá continuou.


 Numa outra manhã o vento voltou, e numa das muitas abanadelas a laranjinha Verde reparou que ali bem perto havia uma outra laranja verde e chamou.


  • Psiu… Psiu…

         Ei, Ei…

  Ó Laranja. Laranjinha …

  Ó  verde! Bem verdinha …


 E nada… Nada! Não havia resposta, ela nem se mexia. Nem ela nem as outras todas! Apesar do vento. Mas que sustento. E ela ali, sem alternativa.

 Será que as outras eram diferentes ? Mas pareciam tão iguais… porque não respondem ?


 Dormia, dormia, dormia… dormia profundamente e até parecia estar muito contente, cheguei a perguntar-me com o que esta sonharia, que a deixava a sorrir, parece que nem estava ali. Até a mim me apetecia ir, sabe-se lá para onde e fazer sabe-se lá o que! Contagiante, que admiração o fascínio da sua expressão, talvez num outro mundo a descobrir, entretanto dei por si com aquela sensação estranha de que algo estava diferente, olhou para um lado, olhou para o outro… tinha dado conta, que o seu verde, afinal, já não era assim tão verde e finalmente se estava a tornar laranja. Mas, o que isso significa ? Estará perto do fim ou ainda agora começou ?

 Que sensação…


  E depois de dias a fio desistiu de chamar as outras, que apesar de tão perto não ouviam seus apelos. Estavam em meditação para ver quem não caía ao chão! Focadas na competição, será ? Será tudo isto uma competição?   Ou não, talvez estejam só a fingir que não estou a ouvir. Não gostam de mim. 

 Dizia lacrimejando. E assim se ia lamentando das situações da sua vida!


  •  E eu que não me concentrei agora acabei no chão e não sei o que será de mim de hoje em diante.


 Até que o vento voltou e numa rajada, esta se soltou, rebolou pela montanha abaixo e só uma raiz a parou. 


  • E agora o que é que eu sou?


Perguntou-se a laranja sem exitar, nem saber o que pensar!

 Pelo chão ali ficou horas a fio, e relembrou a hora com que brotou.

  • Que saudade! (Exclamou)


  Vou chamar as laranjas lá de cima para ver se elas sabem alguma coisa mas o tempo não deixou e ela ali ficou à chuva, ao frio, ao vento. Entre raios e faíscas. 

 De novo abandonada e agora não sabia mais nada nem mesmo como voltar para casa.


 Na manhã do outro dia ainda o sol não acordara e dera por si a ser regada.

  • Oh, não!


 Era a safada da cadela que por ali passava e deu-lhe grande mijadela, sem qualquer exitação.


  • Que nojo, proclamou! A laranja reclamou novamente sem exitar.


 Mas a cadela andava a passear e nem reparou o que estava por ali… e com as patas traseiras tapou a laranja de folhas e não mais voltou nem mesmo se preocupou, Logo outro lugar encontrou para poder urinar. 

 A laranja já deprimente ninguém mais lhe ligou por baixo das folhas ficou, já não chamou as outras nem via por onde andavam, nem o sol a contemplou. Acho que desapareceu, apodreceu. 

 A cadela bem presente, dentro de sua mente. Era alta de pernas alongadas, castanha. Um castanho alaranjado e quando o pelo ficava molhado parecia aveludado! 

 Mas o vento persistente, lá voltou a passar e as folhas levantou pelo ar. E a Laranja na raiz ficou. E mesmo sem querer um encontro arranjou, da outra laranja sua amiga por quem ela sempre chamou que por ser desprevenida também o vento a levou.


  • Cuidado, tu não vês por onde andas.

  • Desculpa diz muito aflita. Soltou-se -me a fita e caí.  

  • Não soltou, foi o vento que a quebrou , já de lá venho.


 e a partir daí o diálogo começou.


  • Como estás bonita. Faz tempo que não te via.

  • Mas que alegria, que elogio. Nem sabia que te conhecia!


 Nem sabia a laranja pelo que a outra passou, mas não deixou de elogiar.


  • Estava a ver que morria mas o vento me soltou, fiquei presa na raiz é como quem diz, por aqui. Mas só esmurrei o nariz.

  • E eu como estou?

  • Um pouco pizadita mas bonita foi por um triz mas de novo cá estás.

  • De novo ?

  • Passei tempos a gritar, chamar e espernear.

No outro dia uma de nós se esborrachou, fartou-se de espirrar e nada a safou até o agricultor a pisar e nada dela sobrar.


  • Ai que mundo…


 Palavra troca palavra e os ânimos exaltaram-se.


  • Olha lá , porque você nunca ligou?

  •  Ligar ? Nem tenho telemóvel!

  • Sim, tu. Engraçadinha, uma laranja de alta tecnologia.  Não te faças de sonsa. Quem diria, chamava por ti todo dia e você de nariz imperialista , nunca me pôs a vista, simplesmente ignorou. 


 Quando o tempo passou e de novo rebolou o vento.


  • Não ouvia !

  • O som com toda a certeza subia e cá por baixo não se ouvia.

Até podia ter razão mas ficou a frustração.

  • E agora cá estou para trocar opinião.


Nisto a cadela aproximou-se:


 A laranja que se soltou primeiro ao vê-la aproximar, logo reagiu como se começasse a rezar.


  • Oh, não. Lá vem ela… Aí Deus!

  • Ela quem… mas estás bem?

  • Aquela bicha nojenta. Todas as manhã vem aqui fazer o seu xixi. E faz por todo lado…


A cadela passou e nem ligou ao fato de elas ali se encontrarem. Nem sabia que a laranja existia! Ela via mas não era o foco da sua atenção.

 Cá na minha opinião, Mal sabiam que atrás da cadela vinha um ser humano, agricultor. Um outro pavor. Esse sim, não iria deixar impune o seu pomar e seus sucos deixar de aproveitar.  E para piorar com veneno costumava borrifar … arvore a arvore sem exitar. 


 Ao ver aquelas duas laranjas e outras tantas mais além, não exitou e começou a catar uma a uma para a cesta que trazia bem por baixo do seu braço direito. Cesta cheia, coloca a cabeça e lá vai ele todo lançado.


  • Para onde vai este marado ?

  • E gritavam uma para a outra.

  • Será pior ? 

  • Pior que o que ?

  • Sei lá

  • Estou a secar

  • O teu suco está-me a sujar

  • Calem-se vocês as duas, como se esta gritaria alguma coisa fosse adiantar. 

  • Quem és tu ?

  • Que voz peculiar .

  • Já me estão a chatear.


Mas uma mais por baixo logo veio sussurrou:


  • Agora vamos morrer, virar suco com toda a certeza ou fruta para alguém comer.

  • E como sabes tu disso?

  • Estamos quase apodrecendo!

  • Já estou a rever, e se vocês não se soltarem acabarei por desaparecer.

  • E não estás a sofrer ?

  • É a vida de Laranja, pressionar até transformar, e de novo sobreviver. 


 Rapidamente chegaram à cozinha, um lugar amplo, bonito e arrumado. Muito arejado por sinal com um belo vitral e cheio de instrumentos, Caçarolas, tachos muito bem areados pareciam espelhos, garfos e facas, colheres que brilhavam vivamente entre muitos outros elementos como o espremedor, o agricultor esse pousou a cesta num cantinho e voltou a sair.


 Pouco a pouco, dia após dia… as laranjas começaram a sumir e no saco do lixo suas cascas apareciam, umas foram bem espremidas e escorreram goela a baixo de Tiago, que apesar do fado ser amargo lá as ingeriu.

  • São azedas Zeza resmungava Tiago. 

 Dizia Dona Zeza:

  •  O menino precisa tomar tudo até ao fim, são vitaminas. Vá menino não me aborreça, que tenho mais que fazer.

 Já as meninas, preferiam como sobremesa, rodeadas de belos enfeites, puras obras de arte, coisa de culinária que Isabelinha aprendeu com a avó que faleceu.

   Pandora, era sempre aquela outra história de quem não queria fruta! Nem fruta nem legumes. Dona Zeza, paciente como se fosse mãe daquela gente lá dava a volta com jeitinho. 

  •  Vá, Pandora, beba antes de cenoura, que é laranja também. Tenho de ter uma paciência maior que sua mãe. 

  • Ó Zé, mas a Zé também é. 

  • Também sou …

  • Sim. A Zé também é nossa mãe, está cá em casa desde muito cedo era eu ainda bebé. 

  • Ó minha querida, a menina ainda não era nascida, e já eu mudava as fraldas ao Tiaguinho. 


  O pior de todos  era o pai resmungam, com barriga de patrão nada o saciava. Fruta não sabia a nada e laranjas gostava de as ver no pomar. A mulher morreu faz muitos anos e desde então ninguém mais o viu sorrir.


Consumidas as frutas sobras levadas para o lixo comum, seguindo sua transformação.

 De suco, virou água, açúcar e vitamina e quanto mais pequenina, mais a sua função nutria o coração do planeta terra.

 Uma pevide como semente acalma a alma da gente que sonha em voltar a ser laranja mesmo nascendo verde. 


  Fim. 


  • Então Zezito tens perguntas para mim? Agora sim, acabou a história.


 Perguntou o professor animado.


  • Não!


 Respondeu Zezito azedo, firmemente e permanecendo em silêncio. Era notório o seu amuo.  


  • Como assim, não! Logo tu que sempre foste alguém extremamente interessado. Não acredito, estás ressabiado. 

  • Não sei o que quer dizer ressabiado mas também não estou preocupado. Bebia agora era um suco de laranja, isso é que era.

  • Tu tens a mania que és engraçado Zezito. Não ficaste admirado de onde vinham as laranjas ou como elas se poderiam sentir ?

  • Não. O meu avô tem uma laranjeira!  E normalmente brinco lá em cima no tronco da laranjeira. Não é que o meu avô queira e a minha avó passa a vida a gritar.  Sai daí… Pareces um macaquito! 

 Mas eu amo apanhar laranjas e as vezes elas não estão por lá, não é a sua época, mas mesmo assim vou até lá conversar com o tronco da laranjeira e se fosse pensar o que as Laranjas sentiam não podia dar-lhes umas mordidas, ou chupar o seu suco.

  • Vejo que gostas da natureza.

  • Gosto imenso e tenho histórias mais bonitas que essa aí que o professor contou. Eu e o meu gato brincamos muito no mato, enquanto o avô Antero vai às pinhas… ou ao moliço. 

  • Podias contar-nos.

  • Eu …!? O professor passa a vida a mandar-me calar. 

  • Mas e o que querias tu que fizesse ? Tu não entendeste a história . Entendeste ?

  • Dês de quando as laranjas falam ? hahaahahah

  • É uma história Zezito.

  • Uma história para bebês, ou o professor acha que eu acredito que as Laranjas falam


  Ai, ai dói me aqui… Ai, Ai… um aperto aqui

 Já imaginou as laranjas no centrifugador ?

 Ai … tirem-me daqui

 Salve-me … Socorro.

 Poupe-me professor!


Sarcástico, Zezito brinca brincando ao fazer gestos espalhafatosos e encenando para toda a turma, enquanto todos os outros meninos riam sem parar dos seus trejeitos. Está claro que o único que não gostou foi o professor. 

 

  • Mas se for uma laranja super heroína tu acreditavas ?

  • Dáááá… Claro que não. São histórias. 

  • Mas como assim… são histórias ?

  • Uma Laranja super Heroína não cairia! Ela voaria, ela cortaria sua casca e faria umas asas ou criaria uma folha que servia de paraquedas ou então um tronco que ao sair da árvore servia de teletransporte. 

As outras Laranjas não respondem porque são moucas. Como no meio de tanta Laranja não haveria uma outra para dialogar?

Isso são historinhas para embalar. 

As Laranjas, se fossem realmente diferentes, não seriam como a gente nem se deixavam espremer. fugiam dos perigos e das raízes a correr! 


  • Mas esta história fala da vida real de uma laranja normal .

  • Hahahaah… ainda pior. Porque uma laranja normal não abre o bico e as suas não se calam, têm olhos e vê o mundo. 

  • Não é isso Zezito, é uma Laranja normal mas como é uma história a falar sobre a vida real das laranjas, elas podem falar. E contar a sua própria história.

  • As Laranjas são como nós, fazem parte da natureza, têm as suas características e quando a sua função na terra termina elas vão embora. Porque não foi o narrador apenas a contar a história ?

  • Vejo que captas-te a essência da história, vais passar a comer mais fruta ou és como a Pandora ?

  • Eu como muita fruta, essa história não é para mim! Não sou assim, como o Tiago ou a Isabelinha, muito menos como a Pandora. Amo fruta e legumes, isso muda a minha história. 

Sou forte e saudável!

  • Que sugeres fazer a seguir ?

  • Podia-mos desenhar um laranjal, muitos troncos, muitas árvores e Laranjas, todas a nascer entre as flores e as cores do nascer até morrer. Explicando suas diversas fases.

  • Boa. Vejo que gostaste da história e está perfeitamente enquadrada a sugestão. 

  • Temos que fazer um aproveitamento.

  • Como assim aproveitamento ?

  • Prefiro abacate. 

  • Como sugeres o vento ?

  • Pode ser uma ventoinha mas a árvore tem de estar bem agarradinha. 

  • Pois, segundo tu as árvores não voam. Então o sol arranjamos um holofote. 

  • Boa ideia Professor. As árvores voam mas estão pendentes da força do vento, e o professor é que sabe se quer pôr o cenário a voar. hahahahahah…

  • Cenário ?

  • Sim, podemos fazer um teatro

  • Vamos ter muito trabalho, temos de começar já. 

  • Que core vai pintar as Laranjas ?

  • É uma Laranja falante, acho que vou usar-te a ti .

  • A mim ? Não. Não quero ficar no cesto esborrachado com as outras … e vão ser meninos na cesta ?

  • Então como sugeres ? 

  • Podemos mudar a história … por favor, professor.

  • E o que farias diferente ?

  • Pintava a Laranja de encarnado e que está pensava ser romã. Não sei se a ideia é boa ou má mas é diferente. 

  • Irreverente da tua parte. Deixa agora os teus colegas falarem!

  • Podia-mos escrever a nossa história. 

  • Boa! Usamos esta como inspiração e de coração para criar uma bela apresentação. Parabéns meninos. 


  Teve o professor de novo mandar calar o Zezito. Ele estava tão feliz, tão entusiasmado, que o barulho na sala era já insuportável que Zezito até se esqueceu do amiguito ao seu lado, estava todo baralhado com semelhante algazarra.  Este muito irritado não falou mais com ele, interrogado pelo professor manifestou sem pudor o seu aborrecimento. 


 Quer no recreio ou dentro da sala não mais lhe dirigia a palavra e nem brinco com ele, onde se viu, aos gritos no meu ouvido. Que perigo!


  • Romeu que fiz eu, dizia Zezito. 

  • Está caladito… Não quero conversa com quem não sabe conversar.

  • Zezito começou a chorar.


Lá teve o professor que explicar ao Romeu que Zezito se excedeu porque estava demasiado entusiasmado, que até se esqueceu que Romeu estava ali mesmo ao lado. 

  • Ele quer, é que suas ideias prevaleçam sempre manipula toda a gente. Não é mais meu amigo! Disse mesmo muito aborrecido.


Zezito não achou bonito e sumiu, não apareceu na escola nos dias seguintes, o que levou o professor a ligar com sua mãe. 


  • Sim, mãe. Sou eu o professor do Zezito. 

  • Oh, senhor professor, mil desculpas mas o Zé não quer ir à escola, já fiz de tudo e ele recusa-se. Diz que se for para estar calado, fica em casa, que se for para ouvir histórias parvas prefere ficar em casa. Já não sei o que fazer para o levar às aulas de novo.  

  • Diga-lhe que preciso dele e suas ideias para construir o cenário. 

  • Está aqui a dizer que o senhor tem aí o Romeu, a Julieta e a João.

  • Diga-lhe que eles não têm a Laranjeira do Avô, e que precisam da experiência dele. Pergunte se está na disposição de fazer uma visita guiada ao pomar do avô e mostrar ao vivo à turma como é uma Laranjeira de verdade.  


 Uma ideia que facilmente seduziu o Zezito, logo correu para convencer o avô que permitisse a visita ao pomar e a fazer a tour com a turma. Feliz como nunca por ser o Guia, ainda convenceu a avó Maria a fazer suco para todos, foi uma alegria. 

 A Mãe fizera um bolo e colocou umas toalhas no jardim com a ajuda da Dona Luiza, fizeram um piquenique e a tarde passou-se assim, entre muitas brincadeiras, fotos e algumas rasteiras, Zezito voltou à escola e fez as pazes com Romeu, acho que aprendeu a lição que Romeu lhe deu. 


 No final do dia era tamanha a sua alegria que não cabia de contente, sentado à mesa de jantar contava ao pai como foi brincar no baloiço que o avô colocara no castanheiro, ainda era o seu pai um menino. Todos se riram à gargalhada quando este explicou que Romeu perdeu o chinelo no balanço de maior lanço, e que todos andaram a tarde toda à procura do chinelo de Romeu, até o professor Ateneu! 

 Aproveitaram para catar laranjas e a avó fez mais suco de laranja para o teatro da escola. 


 Passaram-se dias a fio e com toda a colaboração, finalmente a escola marcou uma reunião. 


 Senhores encarregados de educação, estão todos de parabéns! Além de serem ótimos pais, tem filhos maravilhosos, estou muito orgulhoso por ser professor deles.

 No próximo dia 19 de junho realiza-se no salão nobre da escola pelas 19:00h o encerramento de final do ano e os vossos filhos têm uma maravilhosa surpresa para todos vós.  


 Espanto geral… as crianças não tinham dito nada em casa! Fizeram segredo tal como prometeram ao seu professor.


 Na data marcada, ninguém falou nada até então...  Os pais entraram para o salão nobre da escola e viram o cenário… Wauuu…espantados de novo. Como crianças podiam fazer algo tão…  estão maravilhosos, o professor teve um trabalho espantoso. 


  • Não foi apenas o meu trabalho, meus senhores, um pouco de organização e coordenação, foi tudo feito pelos vossos filhos. 


 O piquenique no pomar do avô Antero, até o baloiço escolheram e construíram uma história que mais tarde saiu no jornal regional acompanhada por uma foto do cenário na escola.  Digamos que correu o mundo inteiro. 

 O presidente da câmara até veio visitar a escola. E lá voltaram os meninos a contar a sua versão de uma história real, representando aquela maravilhosa tarde no pomar do avô Antero.

 No final, as coisas não correram assim tão mal mas foi diferente das outras vezes. Contentes todos gritaram.


 Vitória , vitória , que nunca se repita a história! 


 Ao despedir-se das crianças, o senhor presidente da câmara agarrou o braço de Zezito, dizendo.


  •  Fazes-me lembrar o teu avô Antero, sabes que andei com o teu avô na escola ? 

  • Não, não sabia. 

  • És tal e qual o teu avô. 

  • Avô… Avó…


Gritou Zezito. Apelo que o Senhor Antero não podia ficar indiferente, afinal, era a voz do seu neto. 


  • Avô conhece o senhor presidente da câmara ?

  • Já lá se vão muitos anos, outros tempos. A escola não era o que é hoje. 


Abraçando-se, o presidente da câmara diz:


  • Estou à espera do convite para ir visitar o teu pomar ? 

  • Estou a pensar abrir ao público visitas guiadas. 

hahahaahahah. 


Sorrindo lá iam dispersando os espectadores. Mas os dois velhos amigos ficaram conversando sobre os velhos tempos e se atualizando no presente. 


  • Avô, já vou embora, estou cansado. No refeitório há sumo de laranja para todos e bolo. 


 Os pais de Zezito, estavam tão orgulhosos que nem tinham palavras, agradeceram ao professor o carinho e paciência. Colocaram-se ao dispor dele, se este precisa-se de alguma coisa. Mas para o Professor Antero, o seu presente era mesmo aquele, ver a comunidade feliz! Ver o fruto do seu trabalho rebentar com amor em solo fértil. 


 Já as aulas tinham terminado, já os meninos não iam à escola pois estavam de férias, quando alguém bateu na porta. 


  • Posso ?

  • Zezito! Não digas que estás com tantas saudades que até nas férias queres vir para a escola? 

  • Não. Vi o carro do professor lá fora, quando passei com a minha mãe das compras. Ela disse que o professor ia ficar a preparar o ano letivo que bem mais uns dias, então lembrei trazer-lhe um presente. 

  • Um presente! Para mim, Zezito ? Não é preciso. 

  • Venha, venha que está lá fora ao pé de minha mãe. 


Encantando ficou o professor ao ver um pequeno rebento de Laranjeira. Uma pequena Laranja dependurada anunciando:


Aqui há laranjas! 


  • O professor gosta de Laranjas, não gosta?

  • Não vou comer todas mas muitas das que vier desta árvore serão para mim! 

OBRIGADO

Quem tem um pomar é sempre rico pois até o dinheiro nasce das árvores, assim como o aroma vêm das rosas.


Vieirinha Vieira


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