Portugueses

 Gostava de vos contar, fazer sentir ou até consciencializar para algo faz algum tempo. Tenho andado em trapézios e cambalhotas, tenho submergido à minha própria imaginação. Tenho lutado pela minha língua e pátria!
 É segunda-feira, já passa da uma e meia da madrugada e decidi escrever-vos, primeiro desejava escrever sobre a minha dedicação e exemplo ao longo de uma vida de 42 anos, mas logo fui demovida por vários assaltos à minha imaginação, apanhei o seu controlo e logo após, consegui o poder sobre ela. Desejei contar o tamanho do meu desgosto quando senti a minha liberdade ser punida, removida, invadida, assaltada sem o meu consentimento, sem sequer existir razões plausíveis! Porquês? Ninguém sabe e não me parece que o desejem saber. Não existiu interrogatório e sim invasão e perseguição.
 Mas algo me demoveu disso também!
 Fiquei por horas sentada a pensar sobre o que realmente queria transmitir-vos, e lembrei escrever-vos acerca da minha saúde e o porquê desta ter chegado até onde ela está, apercebi-me que de nada ia adiantar na verdade, nada poderão fazer por ela e aqueles que podem, fazem precisamente o contrário...
 Em silêncio perscrutei dentro de mim os meus desejos e o que fazia falta no meu dia-a-dia de verdade, no século onde o dinheiro compra tudo, pensei: É sobre dinheiro que quero escrever-lhes.
 Mas na verdade, é mentira! O dinheiro não é tudo, ainda mal essa ideia tinha assombrado a minha mente e eu já a tinha ultrapassado com a organização do que eu queria dar ao tudo que desejava transmitir.
 Sabei, a minha alma está cansada! já fiz de tudo para sobreviver! E nada me dá vida. Talvez a morte me de uma nova chance.
Afinal as certezas trouxeram-me a um lençol de nada e as dúvidas me trouxeram tudo aquilo que tenho, como podeis constatar, tenho uma enorme vontade de escrever-vos e contar os meus desejos e desgostos, aventuras, sofrimento até mesmo dos momentos de alegria e divertimento que passei entre vos. No fundo sei perfeitamente que de nada ia adiantar.
 Foi aí que decidi o que ia realmente transmitir:
 A decisão final! O ponto onde tudo termina, onde nada fica em aberto mas que deixa aberta a oportunidade de tudo começar diferente. Sem nada esperar principalmente sem qualquer expectativa.
 Não tenho mais a ilusão de que acreditem em mim ou até que tudo volte a ser como antes, despertei para a realidade, para novas realidades e por mais duro que possa parecer devo enfrentar.
 Por isso vos deixo...
 Já que minhas palavras foram moucas;
 Já que minhas palavras foram ocas;
 Já que minhas palavras não vos serviram de nada!
 Vou ofertar-vos com o meu silêncio, espero com isso, consiga provar o quanto fui digna da vossa atenção.
 Não procuro pena nem piedade, não desejo justificar-me, mas justiça!
 Deixo estas últimas palavras por educação, merecimento e honra. Em nome da verdade, pela língua de uma nação.
 Que de hoje em diante tudo será diferente, pois talvez eu não faça parte de parte alguma.
Gratidão.
 De uma cidadã portuguesa.

                                                              Vieirinha Vieira ( Livro Editora Helvetia)

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